Mesmo com boa cobertura, Samu tem problemas em Minas

Ministério da Saúde elogia modelo de consórcios adotado pelo Estado, mas baixos salários e falta de ambulâncias ainda são desafios para regiões como Jequitinhonha e Mucuri.
Criado há 20 anos, Samu foi tema de audiência pública na Assembleia Legislativa, nesta quinta (29). Foto: Luiz Santana/ALMG
quinta-feira, 29 fevereiro, 2024

Apesar de uma boa cobertura no Estado (88,7%, superior à média nacional, de 87%), o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) enfrenta, em Minas Gerais, problemas como baixos salários e falta de ambulâncias, sobretudo nos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri.

O assunto foi debatido em audiência pública realizada, nesta quinta-feira (29/2/24), pela Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização da Assemleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), a pedido do deputado Doutor Jean Freite (PT). Um dos pontos mais destacados foi a escala de trabalho em vigor desde 1º de janeiro deste ano no Consórcio Intermunicipal de Saúde Nordeste Jequitinhonha (Cisnorje).

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Por determinação do Ministério Público do Trabalho, em cumprimento a um termo de ajustamento de conduta (TAC), na escala praticada pelo Cisnorje passou a prevalecer uma jornada de 12 horas trabalhadas com intrajornada de folga de 36 horas (12x36), no lugar da escala de 24 X 72 horas.

Os condutores e socorristas Edu Pereira e Edno Catapreta e a enfermeira Leonícia de Olveira relataram que não há flexibilidade ou permissão para trocas de plantão, sob pena de aplicação de multa ao consórcio.

Segundo eles, o impedimento estaria não só desagradando trabalhadores e seus familiares, como prejudicando o próprio serviço, ao impedir a substituição de servidor por algum motivo afastado do trabalho, num quadro de pessoal já defasado. 

Edu Pereira ainda criticou o valor do salário, segundo ele de R$ 1.469, tendo Edno Cata Preta destacado que desde 2014 não se faz concurso público para o Samu, apenas processos seletivos simplificados.

"Não entendo porque o nosso serviço é tão desvalorizado. A maioria precisa ter outra renda, por isso a questão da escala é importante, já que não querem pagar mais", desabafou Leonícia.

Dívida

O secretário-executivo do Cisnorje, Antônio Henrique Filho, justificou que a atual gestão do consórco herdou da anterior, no ano passado, uma dívida de R$ 13 milhões e uma situação crítica com a falta de insumos báiscos, como luvas e gases.

"E ainda veio o TAC que nos engessou, porque se tenho uma jornada de 12x36 com quatro condutores para cada ambulância, se um deles tiver uma licença o outro não pode fazer um plantão extra", relatou ele.

Por outro lado, Antônio Henrique afirmou que está em andamento uma negociação coletiva para tentar melhorar a remuneração dos trabalhadores, a exemplo do que já foi feito para os médicos.

O diretor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Thales de Figueiredo, ponderou que é preciso haver incentivos à formação e à permanência de profissionais.

"É preciso se pensar em modelos de contratos que evitem a grande rotatividade, o que se vê hoje são muitas contratações por PJ (pessoa jurídica) em consórcos, que não fixam o profissional e não criam incentivos", alertou ele.

Flexibilidade é defendida

O deputado Doutor Jean Freire defendeu uma revisão emergencial do TAC, que, segundo ele, pode ter aumentado problemas antigos na região, agravados pelas precárias condições para o tráfego de ambulâncias na BR-367.

Doutor Jean Freire
Dep. Doutor Jean Freire

O deputado lembrou de casos como a morte de uma paciente de Itaobim na época do Natal, por falta ou de ambulância, ou de condutor ou de médico, em quatro tentativas feitas para levá-la para Almenara.

O deputado ainda disse que apresentará reqerimentos de informações sobre a situação dos demais consórcios em Minas. A secretária-executiva do Colegiado de Secretarias Executivas de Consórcios Intermunicipais de Minas Gerais (Cosecs-MG), Priscila Costa, adiantou que dificuldades como as relatadas na audiência são vividas por todos os consórcios do Estado, ainda que possam ser maiores no Jequitinhonha e Mucuri.

Solução temporária

O promotor de Justiça Lucas Pereira Nunes, do Ministério Público Estadual, reconheceu que o TAC destacado na reunião trouxe dificuldades para o consórcio, e disse que, por isso, foi solicitado à Secretaria de Estado de Saúde (SES) que se entendesse com o consórco sobre a questão. "A primeira responsabilidade pelo serviço é da SES, que terceirizou o Samu para o consórcio", explicou.

A promotora Isabela Lima, do Ministério Público do Trabalho, disse que o TAC em questão está em vigor há muitos anos e trata de preceitos já constitucionais, ainda que sua execução judicial seja mais recente.

Além de limitar a jornada, segundo ela para não sobrecarregar o trabalhador e comprometer a eficiência do serviço, a execução judicial dá o prazo até 31 de dezembro deste ano para a realização de concurso público no consórcio.

Até lá, ela disse já ter despachado procedimento visando a concessão da jornada de 24x72, mas sem permissão de hora extra, e flexibilização, sem multa, para o limite de uma hora extra no caso da jornada de 12x36. 

Ministério endossa modelo mineiro

Apesar das críticas, Ana Elisa da Fonseca, coordenadora de Atenção às Urgências e Emergências da SES, disse que nos últimos dois anos há um esforço da pasta para aumentar a cobertura do Samu, descentralizando e regionalizando o serviço por meio de consórcios públicos.

Ela afirmou também que no ano passado o Estado repassou R$ 30 milhões para a atenção às emergências, além da complementação do governo federal e dos municípios.

Nilton Pereira Júnior, diretor do Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência (DAHU) do Ministério da Saúde, defendeu o modelo de consórcios públicos intermunicipais adotado em Minas, que, segundo ele, é o mais bem-sucedido do País, por conta da parceria que há entre Estado e municípios. 

Segundo Nilton, regiões como o Noroeste de Minas ainda estão em processo de regionalização do Samu e serão cobertas em breve.

Em apresentação à comissão, ele detalhou os planos do governo federal para o fortalecimento do Samu e disse que o ministério não ajustava sua contrapartida ao custeio do Samu desde 2013, agora ampliado em 30% desde o ano passado para tentar diminuir a defasagem acumulada.

Com informações do site oficial da Assembleia Legislativa de Minas Gerais

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