O sistema caótico da política

Confira a coluna de Jamir Calili
Brasília é o centro do poder político no Brasil. Foto: Marcelo Casal Jr. Agência Brasil
quarta-feira, 10 janeiro, 2024

Por Jamir Calili

O maior erro de um estrategista político, ou de alguém que se autoproclama estrategista político, é achar que a política é uma prática social determinista, controlável e previsível. A política nunca foi um sistema causal ou objetivo, embora possa ser conhecido seus principais aspectos e dominadas as suas principais variáveis.

A política tal como a história pode ser manipulada por forças geográficas, biológicas, econômicas, culturais e religiosas. Mas essas restrições ou aspectos de controle ainda deixam muitos espaços para desdobramentos inesperados que estão alheios à lei do determinismo.

Algumas pessoas acham atraente entender a política como algo controlável de seus gabinetes ou algo controlável por forças econômicas e culturais já conhecidas.

É atraente porque satisfaz o ego dos grupos dominantes, evita que nos esforcemos muito tempo pensando, mas é igualmente atraente pois permite aos grupos dominantes desanimarem atores emergentes, afirmando para eles que tudo já está definido.

Mas a política não pode ser explicada de forma determinista e ainda que possa ser compreendida, explicada e que se possa fazer afirmações probabilísticas, ela não pode ser absolutamente prevista pois trata-se de um sistema caótico, ou melhor um sistema caótico de nível 2.

Para compreendermos um sistema caótico utilizarei a definição do historiador Harari, no livro Sapiens: “tantas forças estão em ação, e suas interações são tão complexas, que variações extremamente pequenas na intensidade dessas forças e na maneira com que interagem produzem diferenças gigantescas no resultado”.

Ou seja, há tantas variáveis a serem consideradas, que um bom estrategista somente é capaz de estabelecer previsões assertivas  se as variáveis permanecerem constantes, o que não ocorre na realidade. Isso foi verdade no Império Romano, na idade média, na idade Moderna, e é ainda mais verdade nos tempos atuais, em que a informação é cada vez mais veloz e descentralizada.

É verdade que o poder político e econômico eram muito mais importantes em 1990 do que é atualmente. Fenômenos como Nicolas Ferreira, Cleitinho Azevedo ou Zema seriam abatidos pelas forças partidárias e pelos arranjos políticos capilarizados dos grupos políticos hegemônicos com muita mais facilidade do que atualmente.

Não estou afirmando que não seria possível vencê-los, mas só arranjos controláveis não são mais capazes. Ademais, não é que não podemos fazer previsões, mas previsões são cada vez mais aleatórias e complexas.

A política não é só um sistema caótico, mas um sistema caótico de nível 2. Para compreendermos o sistema caótico de nível 2 é preciso compreendermos o que é o caos de nível um. O caos de nível um é o caos que não reage às previsões a seu respeito, tal como o clima.

Podemos fazer previsões mais ou menos assertivas acerca do clima de amanhã, mas essa informação será irrelevante para definir o clima de amanhã. Podemos até definir as nossas ações a respeito do clima, mas sabermos a probabilidade da chuva não fará com que chova ou com que deixe de chover.

O sistema caótico de nível 2 é o sistema que reage à própria previsão a seu respeito e por isso nunca será possível prevê-lo com precisão. Se eu prever a eleição ou a reeleição do presidente Lula na próxima eleição presidencial, as condições sobre a qual minha previsão ocorreram, vão naturalmente se alterar, pois os oposicionistas irão alterar suas estratégias.

Se soubermos o preço do petróleo de amanhã, naturalmente muitos agentes econômicos e políticos irão tomar decisões a partir desta informação que resultará numa mudança do preço do petróleo de amanhã. Assim, uma boa estratégia sempre foi um grande desafio para os políticos. E, como eu já afirmei, em tempo de tecnologia e de redes sociais que fragmentam a informação, descentralizando as fontes e dando velocidade às especulações, prever o futuro político é cada vez mais difícil.

Vamos supor que dois grupos dentro de um partido estejam disputando a escolha de seu representante em uma eleição majoritária. Esses 2 grupos, então, traçam estratégias fundamentalmente importantes para serem escolhidos. Porém um terceiro grupo posta uma foto supostamente despretensiosa conversando com um grupo adversário com a frase: decisões sendo tomadas.

Essa informação descentralizada e superficial, pobre em significado, é capaz de desencadear um novo tipo de disputa entre os 2 grupos anteriormente mencionados ou até um acordo que vise neutralizar esse terceiro grupo, abrindo mão de valores anteriormente inegociáveis. Uma mera foto, que poderia não significar nada, pode gerar práticas capazes de prejudicar a todos ou resultados totalmente inesperados.

Assim é que, disputas e tomadas de decisões precipitadas fazem com que a política cada vez mais seja difícil de ser prevista. É óbvio que há restrições como a lei, o poderio econômico, questões culturais e religiosas, mas essas restrições, plagiando o professor israelense, deixam muito espaço para desdobramentos inesperados, que parecem não ter ligação com qualquer lei determinista.

Aquele que buscar controlar o sistema político de forma unilateral, nos tempos em que vivemos, acreditando ser possível restabelecer um controle sobre a vontade popular, provavelmente terá dois fins: ou enlouquecerá, ou desperdiçará uma soma enorme de dinheiro e de tempo.

Jamir Calili é professor da UFJF/GV e vereador em Governador Valadares, MG. Quer falar com Jamir? Escreva: jamir.calili@ufjf.br

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