Era uma vez, Natal de consumo e Mia Couto

As histórias e as emoções dos autores e suas personagens sempre fazem dos Natais um dos mais consolidados elos de inspiração para bons relatos
O escritor moçambicano Mia Couto escreveu mais um capítulo para essa coleção majestosa. Foto: Divulgação
quarta-feira, 10 janeiro, 2024

 Por Amaury Silva

A literatura tem um verdadeiro acervo de obras e reflexões sobre o desvio de finalidade e sentimento sobre o Natal, apropriado como festa que deveria ser espiritual e de reconhecimento da esperança de salvação cristã, pelo sistema social e econômico de mobilização pela produção e consumo. Transformou-se a natividade de Jesus Cristo em pretexto para que a alegria e a redenção, pudesse ser medida pelo peso das moedas. Nada mais, terrivelmente humano para reforçar injustiças.

 De poemas que recuperam o sentido de fraternidade e solidariedade para o Natal, a contos que expõem a mensagem de que o nascimento do Filho de Deus em condições paupérrimas, se assemelha à desigualdade social que impera na maior parte do mundo e, por isso, deveria ser lembrada. As histórias e as emoções dos autores e suas personagens sempre fazem dos Natais um dos mais consolidados elos de inspiração para bons relatos, versos comoventes, enfim, vindo de encontro à assimilação dos leitores.

Em O menino no sapatinho - Ilustrações de Danuta Wojciechowska, 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 2013 o escritor moçambicano Mia Couto escreveu mais um capítulo para essa coleção majestosa. Já de pronto, quando Mia inaugura o texto com o “Era uma vez”, concede referência à fábula, associada a um realismo fantástico, em conexão direta com a trajetória do Menino Jesus e sua missão de resgate do homem mau no mundo mau. E essa configuração diz muito, pois em linguagem sob construção rigorosa e com a crítica na medida certa, Mia Couto se dirige ao público infanto-juvenil e aos adultos.

O menino que nasceu para essa história é tão pequeno, que todos os seus dedos são mindinhos. Esse recurso de reflexão imagética utilizado por Mia, adquire uma avançada comunhão com a ilustração, na medida adequada para viabilizar a atenção dos leitores mais jovens e, também estimular a curiosidade dos mais veteranos. Ao invés do nascimento ser tratado como a mãe deu a luz, para aquele garoto, fora apenas uma fresta de claridade, tamanha a força descritiva do autor para demonstrar o pouco tamanho da criança.

 A mãe tão pobre em recursos em nada se incomodou com as dimensões menores do filho. Era bom que consumiria menos alimentos e afugentaria maus espíritos. Amou a beleza do filho, como se tivesse por esse sentimento, o poder de mudar a classificação dos leptossômicos.

Choro de criança? Que nada, de tão fraco e, aparentemente conformado, não era possível ouvi-lo. As lágrimas opacas não lhe desciam pela face, mas eram evaporadas e grudavam no teto. Mia Couto em uma genial metáfora, denomina o líquido das lágrimas, de missangas tremeluzentes.

O aconchego materno era feito com o menino seguro apenas por uma das  mãos e a comunicação por assobio como pássaro. Pensava a mãe que não estaria apto à conversa por palavras, apenas por intermédio dos cânticos. E admitia assim que o filho não era para esse mundo, para onde algumas estrelas já vem mortas. Era a igreja, a destinatária do foco e atenção da mãe, enquanto o pai do menino, de tudo descrente, desempregado, dividia-se entre o quarto e o bar.

 Sem berço, sem cama ou outra acomodação, o menino foi colocado em um sapato, exatamente o pé esquerdo do único par do pai, que diante disso, passou a calçar, apenas o direito. Esse era o papel rotulado e previsto para o menino desempenhar: estar sempre sob, “nos embaixos do mundo” e mesmo morto, não ter necessidade de ser enterrado. Tensão havia, principalmente, porque a mãe sempre avisava que o menino estava no sapato esquerdo, evitando-se que pudesse ser pisoteado, sobretudo, quando o marido voltava bêbado e sem condições de distinção entre os lados.

 E a ira paterna às vezes se tornava drama: rogava pragas quando a mulher dizia que deveria construir um coxo para o filho, reclamando que tinha sido reduzido a um deschinelado, já que a mulher lhe dera os próprios chinelos, para evitar maiores reclamações. Essa justificativa não resolvia, pois o homem argumentava que os chinelos foram por ele comprados e não eram propícios para andarem em areais localizados na área onde moravam.

 Resultado: a mãe entre apelativa e comovida, comparava para o pensamento do pai, que o filho parecia com o Menino Jesus e estaria melhor que o Redentor, já que tinha o sapatinho. Mas, o pai se irradia em ameaças, chegando a dizer que melhor seria o comprometimento do pequeno, para a liberação do sapato. Como refúgio, a mãe pedia tempo para que a criança pudesse crescer um pouco. Ele não abandonou a ideia e agrediu-a, o que não impediu que a mãe mantivesse os olhos grudados no rebento.

E chegando a época do Natal, a mãe ao retornar da igreja, decide montar a árvore. Composta de tampinhas de cerveja, perante o ornamento a mãe fez uma prece a Deus, pedindo que fosse dado ao filho o tamanho que ele era merecedor. E, talvez, um berço e em outro talvez, um calçado para o marido.

Seguindo a tradição, a mãe deixou o sapatinho contendo o menino junto à árvore na Noite Sagrada. Não dormiu, seus ouvidos ficaram alertas. Ouviu algo como passos na sala, já de madrugada. Em seguida um silêncio dominante que a acolheu pelo cansaço. Ao despertar o menino não estava no sapato, nem próximo à árvore.  Mas, ela sabia para onde tinha ido: levado para os céus por Jesus Cristo, para habitar o mundo mais apto às crianças. Agradeceu comovida em genuflexão e percebeu que o brilho das lágrimas se apagara no teto. E desviou seu olhar, conforme só as mães são capazes de fazer, para não enxergarem os pontos de escuridão no mundo.

Rico em alegorias, como uma característica da escrita de Mia Couto, o livro também deixa a ver outras das suas formas de expressão literária como o neologismo, a remissão cultural e identitária da África e de Moçambique. E o Era uma vez...continuará nos imemoriais do futuro sempre como uma fórmula não só de introdução, mas de substância das narrativas, mesmo para as histórias que como o Natal, contém o próprio tempo e o coloca em compasso de espera.

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