Educação e a família como elemento essencial da Política Pública

Confira a coluna de Jamir Calili desta semana
O papel da família no desenvolvimento educacional da juventude é de grande importância. Ilustração reproduzida da Internet
domingo, 14 janeiro, 2024

por Jamir Calili

            Se você perguntar a 10 pessoas qual a política pública levaria o nosso país ao desenvolvimento, 9 diriam que seria educação. Saúde, segurança pública e a economia desafiam nossas preocupações de curto prazo. Mas é a educação que é vista como política pública para o longo prazo. Acredito que poucos de nós poderíamos duvidar ou desafiar essa percepção popular.

Apesar de nossas preocupações sobre o tema, o Brasil ainda engatinha em termos de performance educacional. O Brasil, no ranking geral, considerando várias competências, ocupa a 53ª posição entre 65 países avaliados pelo PISA, mas estamos quase em último lugar quando o assunto é a matemática.

Poderíamos gastar linhas e linhas aqui falando dos números do Brasil em relação ao mundo. Poderíamos até ponderar que nosso desempenho demonstrou evolução ao longo do tempo, com uma melhoria contínua da média de pontos obtidas pelos nossos estudantes, embora a posição no ranking global não tenha se alterado tanto.

Todo esse diagnóstico importa, mas importa mais pensarmos em qual é o problema da nossa educação e como poderemos solucionar isso. E essa pauta importa muito, uma vez que a educação é um dos setores mais importantes para que melhoremos a produtividade do brasileiro, o que resultará em melhor desempenho socioeconômico da nação como um todo.

Para gente ter uma ideia, no ranking da produtividade, comparado com 62 economias, o Brasil, igualmente, passa vergonha, estamos em 57ª. Claro que a produtividade se dá por vários outros elementos, como a infraestrutura, mas o nível educacional da população é um dos elementos mais importantes.

Em resumo, o brasileiro até tem avançado nos anos escolares, mas o nível de compreensão da linguagem, interpretação de texto, redação, compreensão dos pressupostos científicos, matemáticos e lógicos da realidade estão muito aquém do necessário para avançarmos.

Essa é uma questão crucial de política pública, mas não deve ser encarada somente como um dilema da esfera governamental, mas deve envolver governos, famílias e sociedade civil, em suas mais variadas manifestações.

Apresento quatro problemas que acredito serem fundamentais para serem resolvidos, mas vou me dedicar ao último deles. O primeiro é um problema crônico que envolve infraestrutura escolar e docentes mal remunerados, com poucos espaços adequados para ensino, a educação começa a ter problemas sérios a partir daí. Mas esse é só o começo.

As metodologias estão atrasadas, o conhecimento está ideologizado, gasta-se muito tempo com o que já foi superado e substituído. As nossas crianças têm um nível de desenvolvimento muito diferente do que tinham as crianças na década de 50, embora o ensino utilize, até os dias atuais, o mesmo método. O acesso à informação, ao conhecimento e as múltiplas consequências sociais desse acesso irrestrito pela tecnologia precisam ser internalizados no processo educativo.

O terceiro fator refere-se a questões socioeconômicas e que se entrelaçam com os dois elementos acima apresentados. A grande desigualdade social, aliado à pobreza e a ideologia da prosperidade tem levado uma geração inteira para a depressão e perda do pensamento sistemático e a longo prazo.

Mas o papel mais importante a ser considerado é o papel da família no desenvolvimento educacional da juventude. Diferentes autores, sob diferentes métodos e paradigmas, têm demonstrado que a família é o elemento mais essencial na construção do sucesso educacional.

Pierre Bourdieu, já na década de 70, com sua teoria da reprodução social que demonstrou que a escola era em si um elemento de manutenção da desigualdade social, já apresentava o papel do background familiar na vida escolar.

O sociólogo francês não tinha uma teoria psicológica sobre o papel da família. Cito-o, pois em sua teoria, a família já era considerada mais fundamental para o sucesso do que a escola em si, pois famílias com maior capital cultural tende a investir mais na educação e a perceberem com mais assertividade as falhas do processo educativo formal, sanando-as com maior velocidade.

As teorias psicológicas mais contemporâneas já demonstram que o tempo de qualidade dos pais com os filhos e o envolvimento desses com o processo educacional, investindo tempo, amor e atenção, são poderosos na alavancagem do desenvolvimento educativo. Crianças que tem mais tempo com os pais tendem a serem mais bem sucedidos do que aqueles que somente frequentaram boas escolas, sem o acompanhamento familiar.

Por isso meus caros leitores, qualquer teoria e solução para a melhoria da educação precisa antes de tudo pensar no elemento mais fundamental do desenvolvimento pessoal, que é o papel da família e o papel que ela exerce em relação ao indivíduo em formação.

Serve como alerta para as políticas públicas considerarem os pais como stakeholders fundamentais. Serve para cada um de nós reconsiderar nosso papel de pais dentro do ambiente doméstico e seus impactos na educação.

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