Contos do trapézio e acrobacias existenciais

Confira a coluna de Amaury Silva desta semana
Franz Kafka, autor do conto A Primeira Dor, publicado no Brasil em KAFKA, Franz. Um Artista da Fome, L&PM, Porto Alegre, 2011. Foto: Reprodução da Internet
domingo, 14 janeiro, 2024

por Amaury Silva

A vida frágil, por um triz, vulnerável e exposta a incontáveis riscos, às vezes se evidencia que de tão acentuada normalização dos riscos, tornam imperceptíveis os perigos e enfrentamentos.

Em outros casos, as aflições e os apuros voluntários e consensuais para fins de deleite alheio, formado por um contrato de solidariedade e votos de superação, revelam a perversidade e o prazer alheio com o desastre e a dor do outro, ruindo o pacto em um movimento acrobático dos sentimentos antagônicos que a existência proporciona.

Essa entrega a um universo de agonias e probabilidades dissimuladas de danos, que não caberiam em um compêndio foi tratado em um conto de Franz Kafka, A Primeira Dor, publicado no Brasil em KAFKA, Franz. Um Artista da Fome, L&PM, Porto Alegre, 2011. Também conhecido como Um artista do trapézio, a história é sobre um trapezista que tem ciência da grandeza de sua arte, fruto de um esforço e aperfeiçoamento continuado.

O desafio impôs uma linha de conduta ao trapezista. Seu local de permanência era o trapézio durante as temporadas, atendidas suas poucas necessidades pelos empregados da companhia teatral ou circense para quem trabalhava. Mesmo durante a apresentação dos outros números, o trapezista em silêncio integrava aquela paisagem, vista da plateia e do palco. Mas, era um fluxo que se naturalizou.

Em algumas ocasiões, aquela postura provocava alguma perda de concentração  para o público em relação ao restante da apresentação, mas os responsáveis pelo espetáculo administravam a questão, já que o trapezista era um artista de grande valor, uma raridade.

Quando se pensava acerca do isolamento no trapézio, poderia se cogitar de que o trapezista kafkaniano fazia por espírito de aventura, fascínio ou capricho, mas, na realidade era o método de manter acesa a chama viva da arte que fazia e o domínio técnico dos movimentos.

E é nessa passagem do conto, que o autor utiliza do seu trapezista para explicar a existência de muitos, incorporados aos receios e temores de uma vida na berlinda, ao sabor de um desfecho ruim, pelo equívoco, enfim, a corda bamba da existência.

         Modo de ser, que traz uma espécie de apurada consciência do mundo e de si próprio, que carrega essa expectativa, e envolve uma insensibilidade que pode transformar em indiferença e prostração. Hoje, talvez tratados como sabotadores de si próprios, acomodados ou procrastinadores.

O grande sobressalto e incômodo ao trapezista de Franz Kafka eram as viagens que o grupo tinha que fazer, em novas excursões, cidade a estrada afora.

O empresário ciente de que deveria proteger a grande estrela, cuidava de tudo para amenizar esse sofrimento, quando o grande artista do trapézio tinha que deixar ao menos, temporariamente seu habitat.

Até que sinais da crise surgem entre sono e sonho, durante um daqueles deslocamentos para outras paragens, o trapezista de maneira solene declara que sua carreira em um único trapézio estava encerrada. Afirma para o empresário e dono do entretenimento, que precisaria doravante de dois trapézios, como condição inegociável para a exibição.

Assentiu o empresário em ligeira reflexão, vislumbrando uma benéfica variedade para o show circense. Mas, o trapezista se pôs a chorar, incomodado por reconhecer o risco que sempre correu, seguro apenas por uma barra do trapézio nas mãos. Sem demora, o empresário já assegurou dois trapézios para a próxima apresentação.

Assim que calmo no pós choro, em novo sono, o trapezista já expunha rugas, a  desenhar-se sobre a sua lisa fronte infantil. A acrobacia existencial muda o formato da ousadia; como era essa coragem frente aos desafios, que não foram enxergados pelo movimento que a vida faz aos experimentos de todos. Em determinado estágio da vida, ensina Kafka, é impossível não fazer revisões e revogar concessões.

Do trapézio também vem uma das narrativas sob a forma de conto, das mais instigantes da literatura brasileira. E que coloca sob um sentido de perfídia, o desejo de bem para o outro, a não ser como um consumo antropofágico. É o caso de Jupira, trapezista do Circo Dois Mundos. Integrante do livro Maria Perigosa – Editora José Olympio, 1939, o conto do escritor Luís Jardim, denominado de A moça no trapézio é uma exteriorização de que cismar sobre o perigo alheio, é um alimento de satisfação para o espetáculo como atração que não disfarça o sadismo e o desejo do infortúnio de outrem, seu astro, equipara a todos, como uma satisfação existencial.

Se o sangue jorrando, ossos quebrados e edemas variáveis são instrumentos de prazer para a apreciação das lutas entre animais e entre humanos, ou em uma mistura mal resolvida, o desejo da catástrofe e o sofrimento do outro é uma fronteira alcançada por muitas existências, deixando-se o tratamento especulativo da psicanálise para ser localizado no pragmatismo que a literatura é capaz de desenvolver.

A trapezista Jupira é a grande atração do circo. Morena, dos olhos mignon e com a boca sempre aberta para um riso destinado ao público, que ficava sob seu inteiro controle com essa expressão arrebatadora de sinergia.

Chegou o dia de uma apresentação inusitada, quando Jupira de cabeça para baixo e dirigindo-se ao respeitável público exclama que não queria trabalhar.

Justificou-se de que tinha medo e perguntou se deveria descer do trapézio, recebendo como resposta, aclamações e ofertas de cordas pelos rapazes em declarações românticas.

Luís Jardim que teve sua carreira dedicada de modo mais extenso à literatura infanto-juvenil, produzindo também como pintor, ilustrador e artista gráfico, encarrega Jupira da sua fragmentação, como heroína idealizada pelo público e, talvez insuscetível de se afetar por emoções e paixões humanas. Acometida de uma paixão, as dores de amor tiram a moça trapezista do palco nas sessões seguintes.

A assistência não se cansou em exigir a sua presença, até que a direção do circo teve que avisar a impossibilidade de participação dela, pois estava doente, entre reações e lamentações de toda a ordem, vinda do público que a devia respeitar e amar.

E os rumores em tons de fofocas, durante os intervalos entre os espetáculos davam conta de que Jupira estava em declínio por causa da paixão, até que uma volta foi anunciada entre o drama da trapezista com seu pai, pela proibição da vivência do amor.

Retorno, sacudo do trapézio e caio, era o estilo de uma promessa de vingança da artista. A fagulha do sinistro e da violência humana  que toma conta do furor de sentimentos recebeu no brilhantismo de Marília Pera, uma congruência rara entre o texto escrito e a interpretação teatral, como mostra a TV Cultura no Programa Contos da Meia Noite.

A perfeição e graça de Jupira regressa para o delírio do público. A boca com o sorriso superior e altaneiro da trapezista, entre balanços e movimentos se ilumina com o arremesso de uma rosa rubra que trazia consigo em direção ao esmo limitado da plateia. Era um corpo que caía e outro que ficava no trapézio. Um anúncio que trouxe inquietação.

O vai e vem do trapézio busca um ritmo agourento dos que assistiam a performance: será agora, dessa vez ela cai. Jupira mesmo com um salto mortal, se prende e permanece no trapézio, como um ser animado pela reciprocidade.  O trapézio parecia uma extensão de seu corpo. Desce de maneira segura e disciplinada para receber os aplausos de contentamento ou frustração.

É o vermelho da sua roupa no espetáculo seguinte, que inspira nas movimentações pendulares do trapézio, a Jupira ouvir da plateia, a voz que diz ser aquele um número de sangue. Mas, a segurança da trapezista nas ações perfeitas e adequadas, fazia baixar a aposta pelo desfecho fatídico, mesmo que não se tenha reduzido esse desejo do público. A calmaria se espalhou para os dias seguintes: menos espectadores e menor o interesse pelo trapézio.

Jupira retorna para uma sessão e toda de azul renova seus movimentos de forma brilhante e ouve do palhaço, a confissão entre o hostil e o humor negro: Cai menina bonita, é isso que o público quer. Mas, seguiram-se gargalhadas de elogios à trapezista apaixonada, que não sucumbiu às trapaças do amor e do trapézio da vida. Existir é uma acrobacia, onde nunca cai o pano por causa do ininterrupto contato de todos com o respeitável público.

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